Mulher Maravilha, uma volta às origens

Finalmente a princesa das amazonas chega aos cinemas conseguindo alcançar a difícil missão que vem se arrastando por décadas de fechar a trindade da DC em produções cinematográficas. E não foi um caminho fácil e sem obstáculos esse de Temysciras, o paraíso feminino, até as telonas.

A personagem foi criada na finaleira de 1941 nascendo em berço esplendido no que chamamos de era de ouro dos quadrinhos. Foi concebida por William M. Marston (Charles Marston para o mundo dos gibis) um psicólogo de mente bem aberta e que proclamava aos quatro ventos a importância do amor (talvez por isso fosse bígamo em meio a uma sociedade ferrenhamente conservadora). Também criou o polígrafo, máquina que detecta mentira, que serveria como referência para um dos mais famosos apetrechos da moçoila.

A aparição de uma heroina mulher em plena guerra instaurada condizia com o lado guerreira das esposas de soldados enviados para o front que agora ficavam encarregadas de prover sustento a suas famílias e se identificavam com a personagem ao mostrar força e garra. Porém ao mesmo tempo que Diana (seu nome helênico – até porque não creio que algum cartório do mundo permitisse Mulher-Maravilha como nome, risos) crescia junto com o feminismo, que florescia com espinhos, também sofria por pertencer a um mundo dominado por homens tanto na autoria quanto na recepção. Sendo assim a personagem sofreu bastante em sua personalidade para suprir desejos alheios.

Em diversas capas e histórias de quadrinhos pelo tempo vemos ela sendo usada em posições eróticas com simbolismos fálicos, sentadas nos canos de tanques de guerra, sadomasoquistas, há recorrentes ilustrações de mulheres amarradas e em posição de submissão, e mesmo há pouco tempo atrás seus trajes foram diminuindo em oposição a seus avantajados pomos. Sua silhueta vinha do gosto do freguês. E olha que muita dessas coisas veio da própria mente de Marston que tinha até uma regra maluca de que uma amazona perdia sua força ao ser amarrada tocando seus braceletes e malandramente jogava a culpa na deusa Afrodite.

Mesmo com toda essa antinomia de vontades a DC conseguiu marcar indelevelmente na cultura-pop a Mulher-Maravilha como personagem feminino mais icônico dos quadrinhos e utilizada massivamente por seus fãs como a encarnação do girl power. Porém ainda faltava vencer a maldição da ausência de um filme para chamar de seu.

Um longa metragem hollywoodiano é o carimbo de que um personagem venceu. É forte e carismático o bastante para valer cifras astronomicas investidas por executivos e conseguir atravessar o mundo nerd das HQ’s e alcançar um universo mais diversificado e amplo que vai da vovó Maricota, sua netinha Lurdes até aquele homem sisudo chamado Mario que acha que gibis é para crianças. Porém quando pinta no cinema uma superprodução ela tem que alcançar todos e a personagem ganha status de conhecida por todas as tribos. Qual pai ou mãe não conhece o Batman? Ou o Superman? “Tá, mas minha mãe também conhece a Mulher-Maravilha, cara”. Sim, por tudo o que eu já disse foi uma das únicas heroinas a ultrapassar os gibis e praticamente toda festa a fantasia tinha uma. Porém o que mais se sabia dela? Nome verdadeiro como o Clark Kent? Tinha um side kick (parceiro) como o Robin? Pois é, aí que a coisa complica um pouco.

A Mulher-Maravilha chegou a ter um filme nos anos 70, porém além de muito diferente era feito pela rede ABC diretamente para a televisão na época que era impossível fazer algo que prestasse sobre o tema para essa mídia (com raras exceções). Porém foi nas telinhas que a musa ganhou muita força em um seriado onde era vivida pela estonteantemente linda Lynda Carter (linda até no nome, risos). Foi a prova definitiva que era uma personagem rica e pronta para ser explorada em todas as formas artísticas. Recentemente foi feito um piloto de uma nova série onde Diana usaria calças, mas no fim foi engavetado em mais um projeto frustrado. Ainda assim muitas pessoas, entre elas Patty Jenkins, sempre cutucava a massa acreditando no potencial da Mulher-Maravilha: Por que não um filme?

A Warner tem derrapado em seu universo cinematográfico. Diferente da Marvel ela não tem conseguido manter seu universo coeso e bem estruturado. Após o fim do mundo de Nolan que não conversava com nenhum outro em estilo e estética a empresa apostou muitas verdinhas para tentar trazer seus medalhões em filmes de origems para poder trazer a Liga da Justiça como ápice desse esforço. Novamente o que a Casa das Ideias fez, só que mais bem orquestrado, com os Vingadores.

Porém vários tropeços aconteceram com filmes sombrios com pouca cor, importância e humor. Tentaram arrumar na importância jogando o super-herói mais poderoso contra o homem-morcego em um filão caça-níquel que o título não me deixa mentir e não deu muito certo. Tentaram arrumar então o humor e pegar emprestado o tom pastel da Disney e outro tiro pela culatra com Esquadrão Suicida que até tem pontos divertidos, mas errou por querer ser épico demais em uma tentativa clara de achar o próprio Guardiões da Galáxia da Warner. Rumores da Liga da Justiça também não andam bem.

Então cavalgando da ilha das amazonas chegou aos cinemas nacionais nessa semana o filme Wonder Woman com o papel de deixar para trás toda história mal contada e mostra uma versão definitiva dessa mulher forte que usa uma uma tiara estrelada e tem a responsabilidade de dar esperança para os filmes da DC.

Com roteiro de Geoff Johns e Allan Heinberg baseado em história de Zack Snyder e a direção da sempre esperançosa Patty Jenkins o filme volta à origem da princesa amazona dos gibis originais de onde Diana foi esculpida do barro e ganha o sopro de vida de Zeus. Protegida por sua mãe, acaba desobedecendo-a por ter um espírito de guerreira e fugindo quando conhece um piloto americano que em perseguição por acaso descobre o paraíso grego das mulheres lutadoras. Então há essa mescla entre mitologia grega e histórias de guerra com o intuito de fecundar a história da Mulher-Maravilha que achará no mundo dos homens um lugar para praticar justiça o que as vezes dá um tom que destoa principalmente por toda a cor reunida de seu uniforme destoando totalmente daquele mundo saturado e infeliz.

Gostei bastante do inicio da película onde há todo background da história de Diana. Vemos que ela tem uma chama em seu coração pelo combate. Ela gosta de lutar, algo que está no cerne de todas aquelas mulheres da ilha. Também toda a pitada de mitologia cai muito bem mostrando que Ares o deus da Guerra é um perigo iminente e que apesar de Hipólita fantasiar a respeito de seu fim tem escondido em sua mente que é um mal que inevitavelmente irá voltar. E Ares representa batalha, conflito e contronto. Porém diferente daquelas garotas que o fazem por diversão, defesa e auto-preservação é de modo pernicioso e embebido em ganância e poder que é algo tão acertadamente atribuido aos mortais. Também não deixa de ter nesse deus a representação da testosterona masculina movida pela opressão vista na época.

Na verdade esse vilão pode representar tanta coisa que não caberia em um só texto. Então vem o período do fime que acontece durante a segunda guerra mundial onde a amazona tem que se adaptar a um mundo machista e sem sentido. Sinceramente achei essa parte que compõe bem mais que o meio do filme em muitos momentos enfadonha. O filme fica mais lento e já vimos tantas vezes o clichê de viajante (seja do tempo ou espaço) que vem para nosso mundo e fica atônito com nossos costumes que começa a parecer alguém a tocar música com apenas um único acorde.

E por mais que vejamos muitos costumes ainda vigorando é algo que a mentalidade humana já começa a deixar para trás de tão ridículo e ver isso sendo explorado tão pormenorizado a ponto de perder tempo de filme traz a impressão de um filme antigo da Sessão da Tarde. A comparação de uma secretária com uma escrava acho até mesmo ofensiva. Principalmente que as amazonas também fazem tudo o que sua rainha ordena. A parte final é boa e tem bastante carga dramática embora em algumas partes também vejo um roteiro um pouco perdido e atirado.

PONTOS FORTES

A coreografia das lutas é muito bonita visualmente. Com acrobacias em camera lenta esse é o maior acerto disparado. As amazonas rodopiando no ar antes do disparar de suas flechas ou até mesmo as balas paradas no tempo/espaço para que possamos ver a Mulher-Maravilha desviando-as com seus braceletes. A trilha sonora também está bacana incluindo a música tema que já conheciamos, mas parecia ter um novo arranjo. Os efeitos especiais estão bem aceitaveis. Também há de ser ressaltado o carisma adicionado pela belíssima Gal Gadot que convenceu bem no papel. Também achei interessante haver a presença de uma vilã feminina (Doutora Veneno) que por baixo dos panos consegue ser um antagonista melhor que o general Ludendorff e o próprio Ares. Gostaria de ter visto as amazonas vindo para ajudar Diana na guerra.

PONTOS FRACOS

Achei um filme muito polarizado. A maioria dos personagens eram bidimensionais demais. Você sabe o que esperar de cada um deles sem surpresas maiores. Steve Trevor era muito bom. Não havia defeitos em seu caráter, nem a mais leve divergência que é tão tipica dos seres humanos. Ele só tinha uma obediencia aos costumes, mas nem a isso ele se apegava direito. Imagino que um espião teria que ter pelo menos mais conflitos internos para amadurecer e tornar mais interessante o personagem. O final poderia ter sido mais bonito se uma decisão tivesse sido tomada para provar na balança quanto pesa um coração humano. E não, como no caso, uma beatificação.

Essa polarização é bem representada pelo mundo escondido de onde Diana vem que um braço estendido mostra a diferença de uma praia ensolarada ou uma Bélgica cinza e esfumaçada. Até mesmo uma bomba de gás de Mostarda tem limites de sua fumaça bem definidos demais ao ponto de você parar seu cavalo no ponto exato de dispersão dela. Chega a ser surreal. Pelo menos meu medo de atribuirem a ganancia humana totalmente ao Ares não se justifica, pelo menos isso. Também me choca o fato que quase ninguém se espanta ao ver uma mulher que desvia tiros com o braço, dá super saltos e move tanques militares sem nem estragar o penteado.

Sério mesmo que em plena época em que uma mulher falar em uma sala cheia de homens era ofensivo ninguém ia soltar uma interjeição que seja por uma versão feminina do superman? O laço da verdade achei bonitinho nos primeiros usos, mas assim como uma espada japonesa sacada perde seu encanto nos próximos truques e fica saturada bem rapidamente com usos bem infundados. As lutas finais são bem vazias de contexto e em alguns pontos até de de coerencia. E para um filme de super herói, ainda que de origem, demora demais para ver a Mulher-Maravilha em ação em sua armadura vermelha e amarela.

Exatamente uma hora e meia das mais de duas horas de filme. Uma última coisa que me incomodou, assim como lembro de não ter gostado em O Hobbit, foi piadas de pênis algo tão ao contrário do que o filme queria mostrar. Mediano.

Dito tudo isso dá para sacar que o filme é legal, mas não passa muito disso. Me parece muito com o primeiro filme do Snyder do Superman onde vi na época empolgadaço, mas hoje em dia revendo acho muitas partes enfadonhas. Se o filme tivesse sido mais enxuto e trabalhado um pouco mais nos detalhes ( como em utilizar melhor seu vilão e dar mais vida ao mundo que cria) teria sido muito mais emblemático e memorável. Mas a filha de Hipólita veio para ficar e em breve a veremos em Liga da Justiça. E é praticamente certo que ela volte para uma sequência só dela onde se ela quiser manter seus filmes sob a ensolarada luz solar da costa grega vai ser necessário apresentar um pouco mais do que mostrou. No mínimo nessa bota vermelha vai ter que ter um baita salto alto.

 

TOMA RUMO GURI!!